sábado, 22 de janeiro de 2011

HORA ABSURDA

  

  O TEU SILÊNCIO é uma nau com tôdas as velas pandas…
           Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso…
           E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas
           Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraiso…


           Meu coração é uma ânfora que cai e que se parte…
           O teu silêncio recolhe-o e guarda-o, partido, a um canto…
           Minha idéia de ti é um cadáver que o mar traz à praia…, e entanto
           Tu és a tela irreal em que erro em côr a minha arte…

4-7-1913
FERNANDO PESSOA

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